06/05/2026

ATÉ QUE SEJAM VIOLENTADOS PELA NOITE E SE DISSIPEM TE ESPERANDO, MEUS CABELOS NÃO DORMEM

 


ATÉ QUE SEJAM VIOLENTADOS 

PELA NOITE E SE DISSIPEM 

TE ESPERANDO, 

MEUS CABELOS NÃO DORMEM 

 

                          Geraldo Reis

 

Até que sejam violentados pela noite e se dissipem te esperando,

meus cabelos não  dormem,

não cantam e não se entregam.

 

É assim que se declaram em paz comigo.

E assim serão levados à fonte,

ao rio,  

à pia batismal.

 

Assim receberão,

pelo santo óleo do batismo,

pelo fogo das águas do batismo e pela pedra,

as armas para vencer os inimigos.

 

Receber o batismo implica

em receber o troféu da vitória.  

 

Mas, receio por minhas mãos,

receio que não te encontrem

receio que não te entreguem

a rosa viva que pulsa te esperando

              desde as escrituras,

rosa que todos os meus semelhantes, 

escravizados do amor, 

acordados,

de mãos erguidas em reza, 

reivindicam

numa interminável ladainha

que repetidamente pulsa te chamando

e repetidamente chamam

             “coração”.

 

II

 

ATÉ QUE SEJAM VIOLENTADOS 

PELA NOITE E SE DISSIPEM

 

                   Geraldo Reis

 

Até que sejam violentados pela noite e se dissipem

meus cabelos, que não dormem,

seguem te esperando,

até que sejam dissipados.

 

Quando o vento soprar na paisagem,

violentados embora,

estarão te esperando.

 

Quando o vento me levar para longe,

longe estarão te esperando.

E longe estarão cantando

                     para que eu não durma.

 

Cantarão de tal forma que as pedras

abrirão caminho para o teu regresso.

 

Mesmo que sejam totalmente dissipados

meus cabelos,

que não dormem, 

seguirão te esperando,


Estarão cantando fora da noite

e seguirão cantando fora do tempo

mesmo que não voltes 

e mesmo que longe se dissipem.

 

Seguirão cantando 

mesmo que sejam totalmente violentados

        e mesmo que não voltes. 


Mesmo que sejam totalmente violentados

totalmente se dissipem. 


Ainda que sejam violentados pela noite 

        e se dissipem te esperando,

meus cabelos não  dormem,

não cantam e não se entregam.

 

E mesmo que não cantem, 

seguirão cantando...

 

Mesmo que não voltes

seguirão cantando 

 

Mesmo que sejam violentados pela noite 

e totalmente se dissipem te esperando,

seguirão cantando.

 

Mesmo que não cantem 

seguirão cantando.

 

E cantam

mesmo não cantando.


Não cantando, cantam 

não  dormem, e não se entregam 

 

Meus cabelos brasileiros

não se entregam  

 

Resistem... 

e insistem 

abrindo caminhos. 

 

BH 30/ 03/2026.

01/03/2026

ENFIM, EQUIVOCARAM-SE OS CABRITOS

 

ENFIM, EQUIVOCARAM-SE

OS CABRITOS

 

Geraldo Reis

 

Enfim, equivocaram-se os cabritos

e para tanto amedrontaram-se os cavalos.

 

E portanto enlouqueceram-se os aflitos

e espernearam por quanto se enfartassem.

 

E assim aventuraram-se os inimigos

a rimares nunca dantes navegados.  

 

Para tanto encomendaram-se os comícios

E para tanto os teoremas se ocultaram.

 

E portanto ensimesmaram-se arrecifes  

e oceanos de pedra se acoitaram.

 

E portanto os acólitos ouviram

do Ipiranga no alabastro o que abortaram.

 

II

 

E portanto as encomendas se cumpriram

e os arremedos de promessa se alastraram.

 

E assim os paramentos se remiram

e assim as indulgências se enganaram.

 

E assim reinventaram-se os gemidos  

e assim esquartejaram-se os lacaios.

 

E assim os girassóis se consumiram

no rancor inconfidente nos armários.

 

III

 

E enquanto encomendavam-se os edifícios,

em novos ritos ruminavam-se os canalhas.

 

E enquanto resumiam-se os ofícios, 

os olhos dos ofídios se danavam.

 

E enquanto organizavam-se os artifícios

os arquétipos de Além Tejo se enfartavam.

 

E enquanto se emplumavam os algoritmos

os barômetros de barro se rasgavam.

 

E enquanto equilibravam-se os arbítrios

as andorinhas de tecido se entortavam.

 

E enquanto besuntavam-se os gravídicos

os aracnídeos e os porcos se encrencavam.

 

IV

 

E assim enumeravam-se os altímetros

a meio palmo do casco dos cavalos.

 

E assim carimbaram-se as gotículas

do chafariz nos olhos secos dos lacaios.

 

E assim abominaram o velho rito

e assim os argumentos se fecharam.

 

E assim arrebentaram o edifício

e assim desabitaram o locatário.

 

E assim é que mandaram o veredito

ao quinto dos infernos dos armários.

 

V

 

Não direi de como encalacraram-se os cabritos

nem de como inflacionaram-se os condados.

 

Não direi de como roubaram o gabarito

nem de como se domaram os dromedários.

 

Não direi de como não-se-foram-se os conflitos

nem de como quase todos se mataram.

 

Não direi do plácido repouso adormecido  

de quem sonhava pedrarias e brocados.

 

Não direi da lacração que se benzia

Não direi da sombra morta no alambrado.

 

Não direi de alegações finais do dia

nem de rimares nunca dantes navegados.

 

Não direi da baronesa que chovia

quando um braço do barão foi arrancado.   

 

Não direi da rendilhada cortesia

na guilhotina de fumaça do sobrado.

 

Não direi da cobra morta que engoliam  

nem da pedra impenitente que domavam.

 

Não direi da aluvião que dividiam

nem da vesícula de terra que adoçavam.

 

VI

 

Não porque me cale o precipício

não porque me ferre essa navalha.

 

Não porque não tenha compromisso

não porque me corte essa muralha.

 

Não porque não valha o sacrifício

não porque me venham de soslaio.

 

Não porque não tenha a ver com isso

Não porque no flato revidassem.

 

Pois há quem sendo escravo desse nicho  

no lixo se lambuze e se agasalhe. 

 

Pois há quem seja refém do rebuliço

e há quem não tenha perdido essa batalha.

 

E, portanto, equivocaram-se os cabritos

e portanto amedrontaram-se os cavalos.

 

Segundo a lenda, porém, do infinito

no altar de sacrifício dos armários

 

um galo cego há de domar o mito

e um galho morto há de vingar da palha.

 

GR - 29/JANEIRO/2024.

POESIA NA ESTANTE

  • 50 POEMAS (Antologia bilíngue: Português e Alemão) - Anderson Braga Horta / Tradução de Curt Meyr-Clason)
  • A CONTINGÊNCIA DO SER - Célio César Paduani
  • A INSÔNIA DOS GRILOS - Jorge Tufic
  • A RETÓRICA DO SILÊNCIO - Gilberto Mendonça Teles
  • A ROSA DO POVO - Carlos Drummond de Andrade
  • A SOLEIRA E O SÉCULO - Iacyr Anderson Freitas
  • A VACA E O HIPOGRIFO - Mário Quintana
  • AINDA O SOL - Gabriel Bicalho
  • ARTE DE ARMAR - Gilberto Mendonça Teles
  • ARTEFATOS DE AREIA - Francisco Carvalho
  • AS IMPUREZAS DO BRANCO - Carlos Drummond de Andrade
  • BARCA DOS SENTIDOS - Francisco Carvalho
  • BARULHOS - Ferreira Gullar
  • BAÚ DE ESPANTO - Mário Quintana
  • BICHO PAPEL - Régis Bonvicino
  • CADERNO H - Mário Quintana
  • CANTATA - Yeda Prates Bernis
  • CANTIGA DE ADORMECER TAMANDUÁ E ACORDAR UNS HOMENS - Pascoal Motta
  • CANTO E PALAVRA - Affonso Romano de Sant'Anna
  • CARAVELA - REDESCOBRIMENTOS - Gabriel Bicalho
  • CENTRAL POÉTICA - Lêdo Ivo
  • CONVERSA CLARA - Domingos Pelegrini Jr.
  • CORPO PORTÁTIL - Fernando Fiorese
  • CRIME NA FLORA - Ferreira Gullar
  • CRISTAL DO TEMPO & A COR DO INVISíVEL - Maria do Rosário Teles do invisível
  • DIÁRIO DO MUDO - Paulinho Assunção
  • DICIONÁRIO MÍNIMO - Fernando Fábio Fiorese Furtado
  • DUAS ÁGUAS - João Cabral de Melo Neto
  • ELEGIA DO PAÍS DAS GERAIS - Dantas Motta
  • ESTESIA (Triolés) - Napoleão Valadares
  • FANTASIA - Napoleão Valadares
  • FINIS TERRA - Lêdo Ivo
  • GUARDANAPOS PINTADOS COM VINHO - Jorge Tufic
  • HORA ABERTA - Gilberto Mendonça Teles
  • HORTA (Versos em Três Tempos) - Anderso de Araújo Horta - Maria Braga Horta e Anderson Braga Horta
  • INVENÇÃO DE ORFEU - Jorge de Lima
  • LAVRÁRIO - Márcio Almeida
  • LIRISMO RURAL (O Sereno do Cerrado) - Gilberto Mendonça Teles
  • MEL PERVERSO - Márcio Almeida
  • MELHORES POEMAS - Paulo Leminski
  • NARCISO - Marcus Accioly
  • O ESTRANHO CANTO DO PÁSSARO - Célio César Paduani
  • O ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA - Cecília Meirelles
  • O SONO PROVISÓRIO - Antônio Barreto
  • O TERRA A TERRA DA LINGUAGEM - Gilberto Mendonça Teles
  • OS MELHORES POEMAS DE FERREIRA GULLAR - Ferreira Gullar
  • PASTO DE PEDRA - Bueno de Rivera
  • PLURAL DE NUVENS - Gilberto Mendonça Teles
  • POEMA SUJO - Ferreira Gullar
  • POEMAS REUNIDOS - Gilberto Mendonça Teles
  • POEMAS REUNIDOS - João Cabral de Melo Neto
  • POESIA REUNIDA - Jorge Tufic
  • RETRATO DE MÃE - Jorge Tufic
  • SIGNO (Antologia Metapoética) - Anderson Braga Horta
  • VER DE BOI - Pascoal Motta
  • VESÂNIA - Márcio Almeida
  • VIANDANTE - Yeda Prates Bernis